Araxá, 8 de setembro de 2010
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Robson Merola de Campos  
Robson Merola de Campos é advogado inscrito na OAB/MG sob o nº 96.566  
 
Colunista desde: Maio/2008  
 
Coluna Pingo no “I”  
 

Pátria

Estamos em plena semana da Pátria. Tempo de batermos no peito e afirmarmos: somos brasileiros e somos independentes. Sim, sete de setembro é o dia em que celebramos a nossa independência de Portugal, que ocorreu no longínquo ano de 1822. Entretanto, o patriotismo brasileiro atual está muito mais associado a imagens esportivas (o campeão que sobe ao pódio enrolado no pavilhão nacional) do que no ufanismo de sermos um país de dimensões continentais, que bem ou mal, tem uma economia estável, uma sólida democracia e está finalmente almejando um lugar ao sol na comunidade internacional de nações.

Não é de se admirar. Declarar-se patriota era, até pouco tempo atrás, fora de moda. A “patrulha” proibia isso... Afinal, não se podia ser patriota se o país em que se vive não fosse exatamente aquele que a “patrulha” queria que fosse. Com o regime político que eles queriam impor, diga-se de passagem. Os mais experientes (para não falar mais velhos) sabem sobre o que eu estou escrevendo. Viver nos anos da ditadura militar no Brasil, para a classe intelectual, era um verdadeiro exercício de malabarismo. Se por um lado a ditadura impunha a censura, por outro, a “patrulha” ideológica de esquerda (que hoje ocupa o Palácio do Planalto) também impunha duramente as suas regras e ditava seus conceitos... A jovem guarda era alienada. Guitarra elétrica devia ser banida do território nacional. Peças teatrais e livros só eram bons se fossem contra o regime. E a “patrulha” criticava forte o “imperialismo cultural norte-americano”. Tudo que viesse dos EUA era imediatamente considerado ruim, podre, pobre, uma forma de escravização cultural.

Nesta altura do campeonato, o amigo leitor deve estar se perguntando: “espere aí, o Robson estava escrevendo sobre Pátria; o que uma coisa tem a ver com a outra?” Infelizmente a resposta não é simples. O fato é que governos e respectiva oposição têm a tendência de usar de sentimentos patrioteiros de tempos em tempos para seus próprios fins. E um deles, é justamente tomar o poder ou perpetuar-se nele. Vide o exemplo da Argentina de Leopoldo Galtieri e a Guerra das Malvinas. Em terras tupiniquins, infelizmente, não é diferente. Se nossa independência política de Portugal aconteceu há quase dois séculos, o mesmo não acontece com nossa independência pessoal. O governo, bem ou mal, tem preferido cumular as camadas mais pobres da população com pequenos e miseráveis favores, do que ensiná-la o valor e a satisfação de progredir por seus próprios méritos. Com isso, a chamada alienação dos anos 1960/70 acaba acontecendo de fato atualmente. Mas, ela não é causada pelos vizinhos ricos da América do Norte. Mas, vem do próprio solo brasileiro, daqueles que um dia já criticaram vigorosamente a tal “alienação”. Mas, fazer o que? Afinal, a estratégia de perpetuação no poder parece estar dando certo. E, como diziam antigamente: manda quem pode e obedece quem tem juízo.

Eu, com o pouco juízo que me resta, calo-me agora. Mas, com um desejo sincero de que em alguns anos, talvez meu filho já adulto, possa bater no peito e dizer com orgulho que é patriota, que ama esta terra. E que, seus dirigentes, também a amam e a respeitam. E, acima de tudo, compreendem que a verdadeira democracia é o governo do povo, para o povo e pelo povo. E que Pátria é terra, é união, é respeito, é identidade, mas, acima de tudo, o local onde vivemos, amamos, respeitamos e onde temos todos as oportunidades de sermos pelo menos um pouco mais felizes...

Nomeação

O advogado Marco Túlio Cardoso Porfírio foi nomeado pelo presidente do Instituto dos Advogados de Minas Gerais (IAMG) como Agente para coletar e formular sugestões ao anteprojeto de Código de Processo Civil, atualmente em estudo no Brasil. Muita expectativa tem gerado este novo CPC, principalmente se ele conseguirá trazer uma maior celeridade à lerdíssima tramitação processual.

Fim melancólico...

...porém esperado. As tropas norte-americanas de combate estão abandonando definitivamente o Iraque. Sem alarde. Sem discursos. E sem a vitória prometida. Primeiro, porque não encontraram as famosas armas químicas do arsenal de Sadam Hussein. Segundo, porque não venceram o terrorismo. E finalmente, porque, mais uma vez a história provou que a tortura não vence uma guerra. Nem mesmo contra o terrorismo. Somente raríssimas vezes venceram batalhas... E nem uma destas vitórias pode ser considerada honrosa. Não há honra na tortura. Não há glória na degradação do ser humano.

Chacina no México

Após mais de trinta dias, a imprensa nacional noticiou, com pouco destaque, na noite da última segunda-feira, a morte violenta de dois jovens mineiros de Sardoá, cidadezinha próxima a Governador Valadares. Além dos dois rapazes, outras setenta pessoas foram fuziladas. Segundo depoimento de um sobrevivente a chacina teria sido perpetrada por narcotraficantes, após os imigrantes ilegais terem se negado a colaborar com o crime organizado. O sonho americano cada vez mais se torna um pesadelo.

Chacina no México II

O pouco caso que a imprensa nacional está dispensando a este episódio demonstra bem a inversão de valores que vivemos hoje em dia. Quando vítima ou acusado tem visibilidade pública (jogador de futebol, por exemplo), o noticiário nacional faz um verdadeiro dramalhão sobre o caso, entupindo-nos com informações absolutamente desnecessárias e repetitivas. Mas, se a vítima é “pobre” e “mora longe”, a imprensa nacional simplesmente não está nem aí. E, diga-se de passagem, não dá a cobertura intensa justamente porque o grande público, a massa de manobra, não tem interesse na desgraça de quem é parecido consigo mesmo. Muito mais interessante ver a desgraça do rico, do famoso, do poderoso. Freud, talvez, explique.

Animais

A Avenida Orcalino Afonso (creio seja este o nome) que nasce na Avenida Dâmaso Drumond (quase em frente ao Corpo de Bombeiros) e dá acesso ao Bairro Veredas da Cidade e ao Loteamento Belvedere tem sido freqüentada por animais de quatro patas variados, principalmente eqüinos. O absurdo da situação, que acabará fatalmente em acidente, é que a Prefeitura Municipal cancelou um convênio que mantinha com uma pessoa que recolhia estes animais. Pelo menos foi esta a informação que recebi do atendente do telefone 190 ao ligar para a PM e informar sobre um trio de eqüinos que passeava tranquilamente entre os autos. Esta situação se repete diariamente naquele local. Pergunta que não quer calar: até quando? Resposta rápida: até quando morrer alguém em um acidente. Aí sim, as autoridades tomarão providências...

Um causo...

Um dos mais competentes magistrados com o qual tive o prazer de trabalhar é sem dúvida alguma o Dr. Elcio Arruda, que durante muitos anos atuou na Subseção Judiciária de Uberaba. Dr. Elcio era um humanista nato, mas nem por isso, deixava de aplicar na sua sala de audiência toda a pompa e circunstância que seu trabalho como magistrado federal exigia. Certa ocasião, em uma audiência de instrução e julgamento, o objeto da prova era justamente esclarecer se meu cliente era pequeno produtor rural. A testemunha era uma senhora de mais de sessenta anos de idade, varredeira de ruas. Muito humilde e sabia apenas desenhar o próprio nome.

Quem já serviu como testemunha em um processo sabe que o magistrado, antes de iniciar as perguntas, toma o compromisso da pessoa, ou seja, adverte-a de que deve sempre falar a verdade, sob pena de responder pelo crime de falso testemunho. O Dr. Elcio Arruda, sempre muito sério e compenetrado, tomava o compromisso da testemunha com tal veemência que qualquer um se sentia intimidado. Imaginem então uma senhora idosa e humilde que nunca tinha estado diante de um magistrado?

O diálogo foi mais ou menos assim:

- Fique a senhora então advertida que se faltar com a verdade sairá daqui presa e processada criminalmente. Entendeu?

- Sim senhor...

- A senhora conhece o Fulano de Tal?

- Sim senhor...

- Há quanto anos?

- Uns 20...

- Ele é proprietário rural?

Silêncio na sala de audiência... O juiz insiste na pergunta:

- Eu quero saber se ele é proprietário rural...

E a testemunha, num fio de voz:

- Eu não sei dessas coisas não, seu “dotô”. Eu acho que ele não mexe com isso não. Ele é pessoa direita.

Espanto na sala de audiência. Mas, o magistrado entendeu logo o motivo da confusão da testemunha...

- E dono de uma rocinha, ele é?

- Ah, isso ele é sim senhor...


Para encerrar e refletir:

“A verdadeira lei é somente a justa, e não a injusta, ainda que os ignorantes tenham esta última como lei”.
Platão
 
 

Edições anteriores:
COLUNA PINGO NO “I”
Coluna Pingo no "I"
Coluna Pingo no “I”
COLUNA PINGO NO “I”
COLUNA PINGO NO “I”
COLUNA PINGO NO “I”
 
 
 
 
 
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