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Publicado em:29/05/2014
:: Coluna Justiça :: Renato Zupo e as manifestações pelo Brasil. Vale Conferir...

Dr. Renato Zouain Zupo

Nordestinos

Acredito que o brasileiro não conhece o Brasil. Vivemos de estereótipos, imagens pré-concebidas, rótulos que acreditamos verdadeiros. Somos todos uns preconceituosos e não sabemos. Nossa ignorância provém de uma enorme desinformação histórica, e acabamos hostilizando o que não conhecemos.

Brasileiros do sudeste e do sul, por exemplo, não conhecem o Brasil de cima, do nordeste, que nos fornece pessoas da melhor qualidade, grandes figuras históricas e culturais. Teimamos, porém, em estigmatizar àquela região e o seu povo, achando que de lá só vem flagelados e retirantes, raciocinando de maneira racista que a pobreza seria um defeito étnico.

Pra início de conversa, de qual nordestino estamos falando? Aprendi no livro O Povo Brasileiro, do antropólogo Darcy Ribeiro (natural de Montes Claros), que o nordestino do sertão, longe do mar, descende dos índios bororós, e daí vem aquele seu fenótipo tão conhecido, de gente de estatura atarracada e crânio avantajado e chato. Já o nordestino litorâneo, do recôncavo Baiano e adjacências, é negro e mulato, afrodescendente. Isso sem contar o nordestino do \"extremo nordeste\", se é que posso chamar assim, aquele quase do norte, da Paraíba para cima: é quase um índio amazônico, mais parecido com os silvícolas dos países andinos e os paraenses.

A região do Ceará e do Rio Grande do Norte concentra, ainda, uma considerável parcela de descendentes de europeus caucasianos. Portanto, há vários nordestes dentro de um só, e muita gente não conhece a nenhum deles, sobretudo porque a cultura nordestina é bem diferente da nossa, o que não quer dizer que seja melhor ou pior. Não é possível conhecer uma região tão rica em contrastes, e seu povo de cultura tão multifacetada, simplesmente por se visitar sua área costeira e turística durante as férias, capengando de resort em resort ao longo dos verões. Muito antes pelo contrário, é entrando pela porta da cozinha que melhor se conhece a uma casa e aos seus moradores.

Manifestações Sociais

Se nosso país fosse uma criança, seria um daqueles meninos mimados que solta pipa no ventilador e é criado cheio de dengos e de dedos pela avó. Crescemos sem dificuldades e sem guerras.

Na revolução se deram uns tirinhos, se matou uma meia dúzia e se torturou outro tanto, e é essa a única experiência \"dura\" que tivemos, e foi há já distantes décadas. Antes disso, só havíamos dizimado paraguaios no século 19 e ajudado aos americanos no final da segunda guerra, em 1944, quando aportamos na Itália praticamente só para namorar italianas e prender expatriados e desertores alemães.

Mesmo nossa colonização, e depois, nossa independência, foi pouquíssimo banhada à sangue: praticamente o de alguns revolucionários aqui e acolá, Antônio Conselheiro e Tiradentes entre eles. Portanto, sofremos pouco, e quem sofre pouco não valoriza o que possui. Me lembro de uma cena de Band of Brothers, de Steven Spielberg e Tom Hanks, para mim o melhor filme de guerra da história do cinema - ironicamente uma minissérie produzida para a TV.

Nessa cena, militares americanos chegam a uma aldeia holandesa devastada por Hitler e um soldado dá um pedaço de chocolate para um menino lourinho e magro de fome que assistia, abraçado ao pai, à passagem das tropas do exército aliado. Enquanto o menino devorava o chocolate, seu pai chorava e confessava ao soldado que o filho jamais tinha experimentado aquela iguaria antes. Um chocolate! E estamos falando da Holanda, um país que hoje tem um PIB per capita quatro vezes maior que o nosso. Não estamos falando do Afeganistão ou da Nigéria.

Portanto, quem é rico hoje, quem é feliz hoje, é porque penou e sofreu, e lutou para superar desafios históricos. Nós, brasileiros, que reclamamos de tudo (a maioria das vezes com razão), devíamos olhar em volta e valorizarmos o que temos: um país continental, sem guerras intestinas, com uma língua única, democrático e impregnado - até demais para o meu gosto - de assistencialismo social. Ao invés disso, saímos em passeata para reclamar do que não temos.

Se vivêssemos repletos de carências e calados por baionetas e fosse necessário que conquistássemos uma liberdade que, de fato, nos veio de mão beijada, saberíamos o que merece e o que não merece nossa revolta e nosso escracho.

Renato Zouain Zupo,
Juiz de Direito
Justiça
Renato Zouain Zupo E-mail: Colunista desde: Agosto/2005 Juiz de Direito